27/01/2012

O Sutra do Cortador Adamantino (O Sutra do Diamante)

Publicado em Sem categoria tagged , , às 3:04 por nucleodharmaleiria

Prosterno-me diante de todos os Budas e Bodhisattvas.

Assim ouvi certa vez. O Bhagavān permanecia em Śrāvastī, no bosque do Príncipe Jeta, no jardim de Anāthapiṇḍada, acompanhado de uma grande sangha de 1250 bhikṣus e muitos bodhisattvas mahāsattvas.

Então, durante a manhã, tendo vestido os hábitos monásticos inferior e superior e trazendo a taça de esmolas, o Bhagavān entrou na grande cidade de Śrāvastī para pedir esmola. Então, tendo ido para a grande cidade de Śrāvastī para pedir esmola, o Bhagavān desfrutou da comida que lhe foi oferecida, e tendo desempenhado a atividade da alimentação, como havia abdicado da esmola de comida posterior, pôs de lado a taça de esmolas e o hábito superior. Lavou os pés, sentou-se sobre o coxim preparado e, tendo assumido a postura de pernas cruzadas, endireitou o corpo e estabeleceu a atenção plena à frente. Então, muitos bhikṣus se aproximaram do local onde se encontrava o Bhagavān e, tendo aí chegado, inclinando as suas cabeças aos pés do Bhagavān, deambularam à sua volta três vezes e sentaram-se ao lado.

Também nessa altura, o venerável Subhūti, juntando-se a essa mesma assembleia, sentou-se. Então, o venerável Subhūti levantou-se do seu lugar, colocou o hábito superior por cima de um ombro, pousou o seu joelho direito no chão, inclinou-se, juntando as palmas, diante do Bhagavān e disse-lhe o seguinte: “Bhagavān, a medida na qual o Tathāgata, Arhat, Buda Perfeitamente Desperto beneficiou os bodhisattvas mahāsattvas com o maior dos benefícios, a medida na qual o Tathāgata confiou aos bodhisattvas mahāsattvas a maior das confianças – é espantoso, Bhagavān; é espantoso, Sugata. Bhagavān, como deve permanecer aquele que entrou corretamente no veículo do bodhisattva, como deve praticar, como deve controlar a mente?”

Dito isto, o Bhagavān disse ao venerável Subhūti: “Bem dito, Subhūti, bem dito. Assim é, Subhūti, assim é. O Tathāgata beneficiou os bodhisattvas mahāsattvas com o maior dos benefícios. O Tathāgata confiou aos bodhisattvas mahāsattvas a maior das confianças. Por isso, Subhūti, escuta e retém corretamente na mente, explicar-te-ei como deve permanecer aquele que entrou corretamente no veículo do bodhisattva, como deve praticar, como deve controlar a mente.”

Tendo respondido: “Bhagavān, assim seja” o venerável Subhūti escutou de acordo com o Bhagavān e o Bhagavān disse o seguinte: “Nisto, Subhūti, aquele que entrou corretamente no veículo do bodhisattva deve gerar a mente [do despertar] pensando o seguinte: ‘Tantos quanto são incluídos na categoria de ser senciente – nascidos do ovo, nascidos do ventre, nascidos do calor e humidade, nascidos milagrosamente; com forma, sem forma, com discriminação, sem discriminação, sem discriminação mas não sem discriminação [subtil] – o reino dos seres sencientes, tantos quanto são designados por imputação como seres senciente, a todos eles farei com que passem completamente para lá do sofrimento no reino do nirvana sem que sobrem restos dos agregados. Apesar dos ilimitados seres sencientes assim terem sido levados a passar completamente para lá do sofrimento, nenhum ser senciente foi levado a passar completamente para lá do sofrimento.’

“Porquê? Porque se um bodhisattva se envolver em discriminar um ser senciente, Subhūti, não deve ser chamado de ‘bodhisattva’. Porquê? Se alguém se envolver em discriminar um ser senciente ou se envolver em discriminar um ser vivo ou se envolver em discriminar uma pessoa, Subhūti, não deve ser chamado de ‘bodhisattva’.

“Para além disso, Subhūti, um bodhisattva oferece um dom sem permanecer em coisa alguma; oferece um dom sem permanecer em fenómeno algum. Deve-se oferecer um dom sem permanecer na forma visual, tal como se deve oferecer um dom sem permanecer no som, no cheiro, no sabor, no tacto ou num fenómeno. Subhūti, sem permanecer discriminando coisa alguma como qualquer sinal, assim um bodhisattva oferece um dom. Porquê? Subhūti, porque a pilha de mérito desse bodhisattva que oferece um dom sem permanecer, Subhūti, não é fácil de medir.

“Subhūti, o que pensas disto? Pensas que é fácil medir o espaço a Este?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān.”

O Bhagavān disse: “Igualmente, Subhūti, pensas que é fácil medir o espaço a Sul, a Oeste, a Norte, acima, abaixo, nas direções intermédias e nas dez direções?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān.”

O Bhagavān disse: “Igualmente, Subhūti, a pilha de mérito desse bodhisattva que oferece um dom sem permanecer também não é fácil de medir.

“Subhūti, o que pensas disto? Vê-se alguém como sendo o Tathāgata devido às marcas perfeitas?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān; não se vê alguém como sendo o Tathāgata devido às marcas perfeitas. Porquê? Porque isso mesmo ao que o Tathāgata chamou de marcas perfeitas não são marcas perfeitas.”

Ele respondeu assim e o Bhagavān disse o seguinte ao venerável Subhūti: “Subhūti, na medida em que há marcas perfeitas, nessa medida há engano. Na medida em que não há marcas perfeitas, nessa medida não há engano. Assim, vê o Tathāgata como marcas e não-marcas.”

Ele disse isto e o venerável Subhūti respondeu ao Bhagavān: “Bhagavān, no futuro, no final dos quinhentos, quando o sagrado Dharma deixar completamente de existir, haverá algum ser senciente que produza a discriminação correta sobre as palavras de sūtras, tais como este que é explicado?”

O Bhagavān disse: “Subhūti, não digas o que agora disseste: ‘…no futuro, no final dos quinhentos, quando o sagrado Dharma deixar completamente de existir, haverá algum ser senciente que produza a discriminação correta sobre as palavras de sūtras, tais como este que é explicado…’ Além disso, Subhūti, no futuro, no final dos quinhentos, quando o sagrado Dharma deixar completamente de existir, haverá bodhisattvas mahāsattvas, dotados de moralidade, dotados de qualidades, dotados de sabedoria. Subhūti, além disso, esses bodhisattvas mahāsattvas não terão prestado homenagem apenas a um buda; não terão produzido raízes de virtude apenas a um buda. Subhūti, haverá bodhisattvas mahāsattvas que terão prestado homenagem a várias centenas de milhares de budas e terão produzido raízes de virtude a várias centenas de milhares de budas.

“Subhūti, o Tathāgata conhece aqueles que irão adquirir meramente uma mente de fé sobre as palavras de tais sūtras, como este que é explicado. Subhūti, eles são vistos pelo Tathāgata; Subhūti, todos esses seres sencientes irão produzir e colher perfeitamente uma incomensurável pilha de mérito. Porquê? Porque esses bodhisattvas mahāsattvas não se envolverão em discriminar um eu e não discriminarão um ser senciente, Subhūti, não discriminarão um ser vivo, não se envolverão em discriminar uma pessoa.

“Subhūti, esses bodhisattvas mahāsattvas não se envolverão em discriminar fenómenos nem em discriminar não-fenómenos; nem se envolverão na discriminação nem na não discriminação. Porquê? Porque se esses bodhisattvas mahāsattvas se envolvessem em discriminar fenómenos, Subhūti, isso mesmo seria, da sua parte, um agarrar-se a um eu e um agarrar-se a um ser senciente, um agarrar-se a um ser vivo, um agarrar-se a uma pessoa. Porque mesmo se se envolvessem em discriminar fenómenos como não existentes, isso seria, da sua parte, um agarrar-se a um eu e um agarrar-se a um ser senciente, um agarrar-se a um ser vivo, um agarrar-se a uma pessoa.

“Porquê? Para além disso, Subhūti, porque um bodhisattva não se deve agarrar incorretamente a fenómenos, nem se deve agarrar a não-fenómenos.”

Por isso, pensando nisso, o Tathāgata disse: “Se, por aqueles que conhecem este tratado do Dharma tal como se fosse um barco, mesmo estes dharmas devem ser abandonados, que necessidade haverá de mencionar não-dharmas?”

Para além disso, o Bhagavān disse ao venerável Subhūti: “O que pensas disto, Subhūti? Esse dharma que foi realizado manifesta e completamente pelo Tathāgata, o despertar sem igual, perfeito e completo, existirá de algum modo? Haverá algum Dharma sido ensinado pelo Tathāgata?”

Dito isto, o venerável Subhūti respondeu ao Bhagavān: “Bhagavān, tal como entendo o significado deste ensinamento dado pelo Bhagavān, esse dharma que foi realizado manifesta e completamente pelo Tathāgata, o despertar sem igual, perfeito e completo, não existe de modo algum. Esse dharma que foi ensinado pelo Tathāgata não existe de modo algum. Porquê? Porque qualquer dharma, realizado ou ensinado manifesta e completamente pelo Tathāgata, não deve ser agarrado, não deve ser expressado; não é dharma nem não-dharma. Porquê? Porque os seres ārya diferenciam-se pelo não-composto.”

O Bhagavān disse ao venerável Subhūti: “O que pensas disto, Subhūti? Se um filho ou filha da linhagem, enchendo completamente este sistema de mil milhões de mundos com os sete tipos de coisas preciosas, oferecesse dons, pensas que esse filho ou filha da linhagem produziria uma imensa pilha de mérito com base nisso?”

Subhūti respondeu: “Imensa, Bhagavān. Imensa, Sugata. Esse filho ou filha da linhagem produziria uma imensa pilha de mérito com base nisso. Porquê? Porque essa mesma pilha de mérito não é uma pilha, Bhagavān; assim, o Tathāgata diz: ‘Pilha de mérito, pilha de mérito’.”

O Bhagavān disse: “Subhūti, comparado com qualquer filho ou filha da linhagem que, enchendo este sistema de mil milhões mundos com os sete tipos de coisas preciosas, oferecesse dons, se alguém, tomando apenas uma estância de quatro linhas deste discurso do Dharma, também o explicasse e ensinasse aos outros correta e exaustivamente, com base nisso, a pilha de mérito produzida seria muito maior, incalculável, incomensurável. Porquê? Porque o despertar sem igual e perfeitamente completo dos tathāgatas, arhats, budas perfeitamente completos surgem daí, Subhūti; os budas bhagavāns também são produzidos daí. Porquê? Subhūti, porque os dharmas do buda chamados ‘dharmas do buda’ são aqueles dharmas do buda ensinados pelo Tathāgata como não-existentes; assim, chamam-se ‘dharmas do buda’.

“O que pensas disto, Subhūti? Será que aquele que entrou na corrente pensa: ‘Alcancei o resultado de ter entrado na corrente’?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān. Porquê? Porque não se entra em coisa alguma, Bhagavān; assim, diz-se que alguém ‘entrou na corrente’. Não se entrou na forma, nem se entrou no som, nem no cheiro, nem no sabor, nem no tacto, nem se entrou num fenómeno; assim, diz-se que alguém ‘entrou na corrente’. Bhagavān, se esse que entrou na corrente pensasse ‘Alcancei o resultado de ter entrado na corrente’, isso mesmo seria um agarrar-se a isso como um eu, um agarrar-se como um ser senciente, um agarrar-se como um ser vivo, um agarrar-se como uma pessoa.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? Será que aquele que retorna uma vez pensa: ‘Alcancei o resultado de retornar uma vez’?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān. Porquê? Porque o fenómeno de entrada no estado de retornar uma vez não existe de modo algum. Assim, diz-se ‘aquele que retorna uma vez’.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? Será que aquele que não retornará pensa: ‘Alcancei o resultado não retornar‘?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān. Porquê? Porque o fenómeno de entrada no estado de não retornar mais não existe de modo algum. Assim, diz-se ‘aquele que não retornará’.”

O Bhagavān disse: “Subhūti, o que pensas disto? Será que o arhat pensa: ‘Alcancei como resultado o estado de arhat‘?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān. Porquê? Porque o fenómeno chamado ‘arhat’ não existe de modo algum. Bhagavān, se o arhat pensasse: ‘Alcancei como resultado de estado de arhat’, isso mesmo seria um agarrar-se a isso como um eu, um agarrar-se como um ser senciente, um agarrar-se como um ser vivo, um agarrar-se como uma pessoa.

“Bhagavān, fui anunciado pelo Tathāgata, Arhat, Buda Perfeitamente Completo, como estando em primeiro entre os que permanecem sem aflições. Sou um arhat, Bhagavān, livre de apego; mas, Bhagavān, eu não penso: ‘Sou um arhat’. Bhagavān, se eu pensasse: ‘Alcancei o estado de arhat’, o Tathāgata não teria feito a predição sobre mim, dizendo: ‘O filho da linhagem, Subhūti, está em primeiro entre os que permanecem sem aflições. Uma vez que não permanece em coisa alguma, ele permanece sem aflições, ele permanece sem aflições.’”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? O dharma que foi recebido pelo Tathāgata a partir do Tathāgata, Arhat, Buda Dīpaṇkara Perfeitamente Completo, existirá de algum modo?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān. O dharma que foi recebido pelo Tathāgata a partir do Tathāgata, Arhat, Buda Dīpaṇkara Perfeitamente Completo não existe de modo algum.”

O Bhagavān disse: “Subhūti, se alguns bodhisattvas dissessem: ‘Concretizarei campos ornados’, falariam falsamente. Porquê? Subhūti, porque os campos ornados chamados ‘campos ornados’ são ensinados pelo Tathāgata como não sendo existentes; assim, chamam-se ‘campos ornados’. Por isso, Subhūti, o bodhisattva mahāsattva deve assim gerar a mente sem permanecer, deve gerar a mente não permanecendo em coisa alguma. Deve gerar a mente não permanecendo na forma, deve gerar a mente não permanecendo no som, no cheiro, no sabor, no tacto ou nos fenómenos.

“É assim, Subhūti: se, por exemplo, o corpo de um ser se tornasse assim, se tornasse como isto, tão grande como Sumeru, o rei das montanhas, o que pensas disto, Subhūti? Seria esse corpo grande?”

Subhūti respondeu: “Esse corpo seria grande, Bhagavān. Esse corpo seria grande, Sugata. Porquê? Porque é ensinado pelo Tathāgata como não sendo coisa alguma; assim, chama-se um ‘corpo’. Uma vez que é ensinado pelo Tathāgata como não sendo coisa alguma, assim, chama-se ‘corpo grande’.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? Se também houvesse tantos rios Ganges como os grãos de areia do rio Ganges, os seus grãos de areia seriam muitos?”

Subhūti respondeu: “Bhagavān, se esses mesmos rios Ganges fossem muitos, nem é preciso mencionar os seus grãos de areia.” O Bhagavān disse: “Devias ponderar, Subhūti; devias compreender. Se um homem ou mulher, enchendo completamente com os sete tipos de coisas preciosas tantos sistemas mundanos como os grãos de areia desses rios Ganges, oferecesse isso aos tathāgatas, arhats, budas perfeitamente completos, o que pensas disto, Subhūti? Esse homem ou mulher produziria muito mérito com base nisso?

Subhūti respondeu: “Muito, Bhagavān. Muito, Sugata. Esse homem ou mulher produziria muito mérito com base nisso.”

O Bhagavān disse: “Subhūti, comparado com alguém que, enchendo completamente tantos sistemas mundanos com os sete tipos de coisas preciosas, oferecesse dons aos tathāgatas, arhats, budas perfeitamente completos, se alguém, tomando apenas uma estância de quatro linhas deste discurso do Dharma, também o explicasse e ensinasse aos outros correta e exaustivamente, com base nisso, o mérito que isso mesmo produziria seria muito maior, incalculável, incomensurável.

“Para além disso, Subhūti, se em qualquer lugar da terra, mesmo uma estância de quatro linhas deste discurso do Dharma for recitada ou ensinada, esse lugar da terra é um verdadeiro santuário do mundo com devas, humanos e asuras, nem é preciso mencionar que quem tome este discurso do Dharma, o memorize, o leia, o compreenda e o retenha em mente corretamente será deveras espantoso. Nesse lugar da terra onde reside o Mestre, outros níveis de gurus também permanem.”

Dito isto, o venerável Subhūti respondeu ao Bhagavān: “Bhagavān, qual é o nome deste discurso do Dharma? Como deverá ser relembrado?”

Dito isto, o Bhagavān respondeu ao venerável Subhūti: “Subhūti, o nome deste discurso é a ‘sabedoria transcendente’; deverá ser relembrada assim. Porquê? Porque essa mesma sabedoria transcendente que é ensinada pelo Tathāgata não é transcendente, Subhūti; assim, chama-se ‘sabedoria transcendente’.

“O que pensas disto, Subhūti? O dharma que é ensinado pelo Tathāgata existirá de algum modo?”

Subhūti respondeu: “Bhagavān, o dharma que é ensinado pelo Tathāgata não existe de modo algum.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? As partículas de terra que existem num sistema de mil milhões de mundos são muitas?”

Subhūti respondeu: “As partículas de terra são muitas, Bhagavān. São muitas, Sugata. Porquê? Bhagavān, porque aquilo que é uma partícula de terra foi ensinado pelo Tathāgata como não sendo uma partícula; assim, chama-se ‘partícula de terra’. Aquilo que é um sistema mundano foi ensinado pelo Tathāgata como não sendo um sistema mundano; assim, chama-se ‘sistema mundano’.”

O Tathāgata disse: “O que pensas disto, Subhūti? Vê-se alguém como sendo o Tathāgata, Arhat, Buda Completamente Completo devido àquelas trinta e duas marcas de um grande ser?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān. Porquê? Bhagavān, porque aquelas trinta e duas marcas de um grande ser que são ensinadas pelo Tathāgata, são ensinadas pelo Tathāgata como não-marcas; assim, chamam-se ‘trinta e duas marcas do Tathāgata’.”

O Bhagavān disse: “Para além disso, Subhūti, comparado com um homem ou mulher que abandone completamente tantos corpos como os grãos de areia do rio Ganges, se alguém, tomando apenas uma estância de quatro linhas deste discurso de Dharma, também o ensinasse aos outros, com base nisso, produziria uma incalculável e incomensurável quantidade de grandes méritos.”

Então, devido ao impacto do Dharma, o venerável Subhūti derramou lágrimas. Depois de limpar as lágrimas, respondeu ao Bhagavān: “Bhagavān, este discurso sobre o Dharma assim ensinado pelo Tathāgata, é espantoso, Bhagavān. É espantoso, Sugata. Desde a produção da minha elevada sabedoria, nunca tinha ouvido este discurso sobre o Dharma, Bhagavān. Os seres sencientes que produzam uma correta discriminação sobre este sūtra que é explicado serão deveras espantosos, Bhagavān. Porquê? Porque aquilo que é uma correta discriminação não é discriminação, Bhagavān; assim, a discriminação correta foi ensinada pelo Tathāgata dizendo ‘correta discriminação’. Acerca deste discurso sobre o Dharma que é explicado, que eu imagine e aprecie, isso não é espantoso para mim, Bhagavān. Nos tempos finais, na era final, no final dos quinhentos, os seres sencientes que tomem este discurso do Dharma, o memorizem, o leiam e o compreendam serão deveras espantosos, Bhagavān. Para além disso, Bhagavān, não se empenharão em discriminar um eu; não se empenharão em discriminar um ser senciente, em discriminar um ser vivo, em discriminar uma pessoa. Porquê? Porque aquilo mesmo que é uma discriminação como um eu, discriminação como um ser senciente, discriminação como um ser vivo, discriminação como uma pessoa não é discriminação, Bhagavān. Porquê? Os budas bhagavāns são livres de toda a discriminação.”

Dito isto, o Bhagavān respondeu ao venerável Subhūti: “Assim é, Subhūti. Assim é. Sobre este sūtra que é explicado, os seres sencientes que não têm medo, que não estão aterrorizados e que não ficarão aterrorizados serão deveras espantosos. Porquê? Porque esta elevada sabedoria transcendente ensinada pelo Tathāgata, Subhūti, a elevada sabedoria transcendente que é ensinada pelo Tathāgata também foi ensinada pelos incomensuráveis budas bhagavāns; assim, é chamada ‘elevada sabedoria transcendente’.

“Para além disso, Subhūti, aquilo mesmo que é a paciência transcendente do Tathāgata, não é transcendente. Porquê? Porque quando o rei de Kaliṅga me cortou os membros e apêndices, Subhūti, nessa altura não surgiu em mim a discriminação como um eu, a discriminação como um ser senciente, a discriminação como um ser vivo, nem a discriminação como uma pessoa e não houve discriminação alguma em mim, apesar de não haver também não-discriminação. Porquê? Porque se nessa altura tivesse surgido em mim a discriminação como um eu, Subhūti, nessa altura também teria surgido a discriminação de maldade; se tivesse surgido a discriminação como um ser senciente, a discriminação como um ser vivo, a discriminação como uma pessoa, nessa altura também teria surgido a discriminação de maldade.

“Subhūti, sei com clarividência que no passado, durante quinhentas vidas, fui o rishi chamado ‘Pregador da Paciência’; mesmo nessa altura não surgiu em mim a discriminação como um eu; não surgiu a discriminação como um ser senciente, a discriminação como um ser vivo, a discriminação como uma pessoa. Por isso, Subhūti, o bodhisattva mahāsattva, abandonando completamente toda a discriminação, deve gerar a mente para o despertar sem igual e perfeitamente completo. Deve-se gerar a mente, não permanecendo na forma. Deve-se gerar a mente, não permanecendo no som, no cheiro, no sabor, no tacto ou em fenómenos. Igualmente, deve-se gerar a mente, não permanecendo em não-fenómenos. Deve-se gerar a mente, não permanecendo em coisa alguma. Porquê? Porque aquilo mesmo que permanece não permanece. Assim, o Tathāgata ensinou: ‘O bodhisattva deve oferecer dons sem permanecer’.

“Para além disso, Subhūti, o bodhisattva deve assim oferecer totalmente dons pelo bem-estar de todos os seres sencientes. No entanto, aquilo mesmo que é uma discriminação como um ser senciente é não-discriminação. Aqueles mesmos que foram ensinados pelo Tathāgata dizendo ‘todos os seres sencientes’ também não existem. Porquê? Porque o Tathāgata ensina a realidade, Subhūti, ensina a verdade, ensina o que é; o Tathāgata ensina aquilo que é sem erro.

“Para além disso, Subhūti, o dharma que é realizado ou mostrado manifesta e completamente pelo Tathāgata não tem nem verdade nem falsidade. É assim, Subhūti, por exemplo: se um homem com olhos tiver entrado na escuridão, ele não vê coisa alguma; igualmente se deve ver o bodhisattva que entrega totalmente um dom ao cair sobre qualquer coisa.

“É assim, Subhūti, por exemplo: sobre o amanhecer e com o nascer do Sol, um homem com olhos vê vários tipos de formas; igualmente se deve ver o bodhisattva que entrega totalmente um dom ao não cair em coisa alguma.

“Para além disso, Subhūti, esses filhos ou filhas da linhagem que tomem este discurso do Dharma, o memorizem, o leiam, o compreendam e o ensinem aos outros em detalhe, correta e exaustivamente, são conhecidos pelo Tathāgata, são vistos pelo Tathāgata. Todos esses seres sencientes produzirão uma incomensurável pilha de mérito.

“Para além disso, Subhūti, comparado com um homem ou mulher que, ao amanhecer, abandonasse totalmente tantos corpos como os grãos de areia do rio Ganges – também abandonando tantos corpos como os grãos de areia do rio Ganges ao meio-dia e à noite, abandonando corpos em tal quantidade por cem milhares de dezenas de milhões, cem milhares de milhões de éones – se alguém, tendo ouvido este discurso do Dharma, não o rejeitasse, se eles mesmos produzissem muito mais mérito com base nisso, incalculável, incomensurável, que necessidade haverá de mencionar alguém que o tenha escrito, tomado, memorizado, lido, compreendido e ensinado aos outros em detalhe, correta e exaustivamente?

“Para além disso, Subhūti, este discurso do Dharma é inimaginável e incomparável. Este discurso do Dharma foi ensinado pelo Tathāgata para o benefício dos seres sencientes que tenham entrado corretamente no veículo supremo, para o bem-estar dos seres sencientes que tenham entrado corretamente no melhor veículo. Aqueles que tomem este discurso do Dharma, o memorizem, o leiam, o compreendam e o ensinem aos outros em detalhe, correta e exaustivamente, são conhecidos pelo Tathāgata; são vistos pelo Tathāgata. Todos esses seres sencientes serão dotados de uma incomensurável pilha de mérito. Sendo dotados de uma inimaginável pilha de mérito, incomparável, imensurável e ilimitada, todos esses seres sencientes sustentarão o meu despertar sobre o ombro. Porquê? Este discurso do Dharma não pode ser ouvido pelos que apreciam o inferior, Subhūti, pelos que vêem um eu, pelos que vêem um ser senciente, pelos que vêem um ser vivo; os que vêem uma pessoa são incapazes de ouvir, tomar, memorizar, ler e compreender porque isso não pode ser.

“Para além disso, Subhūti, em qualquer lugar da terra onde este sūtra seja ensinado, esse lugar da terra será digno de lhe ser prestada homenagem pelo mundo, com devas, humanos e asuras. Esse lugar da terra será digno como objeto de prosternação e digno de se deambular em redor. Esse lugar da terra será como um santuário.

“Subhūti, qualquer filho ou filha da linhagem que tome as palavras de um sūtra como este, o memorize, o leia e o compreenda, será atormentado; será intensamente atormentado. Porquê? Porque quaisquer ações não virtuosas de vidas passadas que tenham sido cometidas por esses seres sencientes e que levassem a um renascimento em reinos inferiores, Subhūti, devido  ao tormento nesta mesma vida, essas ações não virtuosas de vidas passadas serão purificadas e eles também irão alcançar o despertar de um buda.

“Subhūti, sei com clarividência que no passado, em ainda mais inumeráveis éones, muito além do que está além do Tathāgata, Arhat, Buda Dīpaṇkara Perfeitamente Completo, houve oito mil e quatrocentos milhares de dezenas de milhões, cem milhares de milhões de budas aos quais eu agradei e, tendo agradado, não transtornei. Subhūti, do que quer que eu tenha feito, tendo agradado e não transtornado esses budas bhagavāns e, no futuro, no final dos quinhentos, de alguém que tome este sūtra, o memorize, o leia e o compreenda, Subhūti, comparado com esta pilha de mérito, a pilha de mérito anterior não se aproxima até de uma centésima parte, de uma milésima parte, de um centésimo de uma milésima parte; não suporta enumeração, medida, cálculo, semelhança, equivalência ou comparação.

“Nessa altura, Subhūti, os filhos e filhas da linhagem receberão uma pilha de mérito numa quantidade que, se eu a exprimisse, os seres sencientes ficariam loucos, ficariam perturbados.

“Para além disso, Subhūti, sendo este discurso do Dharma inimaginável, a sua maturação também deve ser realmente conhecida como inimaginável.”

Então, o venerável Subhūti respondeu ao Bhagavān: “Bhagavān, como deve permanecer aquele que entrou corretamente no veículo do bodhisattva, como deve praticar, como deve controlar a mente?”

O Bhagavān respondeu: “Nisto, Subhūti, aquele que entrou corretamente no veículo do bodhisattva deve gerar a mente pensando o seguinte: ‘Farei com que todos os seres sencientes passem completamente para lá do sofrimento no reino do nirvana sem que sobrem restos dos agregados. Apesar dos seres sencientes terem sido levados a passar completamente para lá do sofrimento, nenhum ser senciente foi levado a passar completamente para lá do sofrimento.’ Porquê? Porque se um bodhisattva se envolver em discriminar um ser senciente, Subhūti, não deve ser chamado de ‘bodhisattva’. Igualmente, se se envolver em discriminar uma pessoa não deve ser chamado de ‘bodhisattva’. Porquê? Porque o dharma chamado ‘aquele que entrou corretamente no veículo do bodhisattva’ não existe de modo algum, Subhūti.

“O que pensas disto, Subhūti? Existirá de algum modo esse dharma que foi realizado manifesta e completamente pelo Tathāgata, a partir do Tathāgata Dīpaṇkara, o despertar sem igual, perfeito e completo?”

Dito isto, o venerável Subhūti respondeu ao Bhagavān: “Bhagavān, esse dharma que foi realizado manifesta e completamente pelo Tathāgata, a partir do Tathāgata Dīpaṇkara, o despertar sem igual, perfeito e completo, não existe de modo algum.”

Dito isto, Bhagavān respondeu ao venerável Subhūti: “Assim é, Subhūti, assim é. Esse dharma que foi realizado manifesta e completamente pelo Tathāgata, a partir do Tathāgata Dīpaṇkara, o despertar sem igual, perfeito e completo, não existe de modo algum. Se esse dharma que foi realizado manifesta e completamente pelo Tathāgata existisse de algum modo, Subhūti, o Tathāgata Dīpaṇkara não me teria feito a predição, dizendo: ‘Jovem brâmane, no futuro tornar-te-ás o Tathāgata, Arhat, Buda Perfeitamente Completo chamado Śākyamuni.’ Assim, Subhūti, uma vez que esse dharma que foi realizado manifesta e completamente pelo Tathāgata, o despertar sem igual, perfeito e completo, não existe de modo algum, o Tathāgata Dīpaṇkara fez-me a predição, dizendo: ‘Jovem brâmane, no futuro tornar-te-ás o Tathāgata, Arhat, Buda Perfeitamente Completo chamado Śākyamuni.’ Porquê? Porque ‘Tathāgata’ é um epíteto da natureza fundamental da realidade, Subhūti.

“Subhūti, se alguém dissesse: ‘O Tathāgata, Arhat, Buda Perfeitamente Completo realizou manifesta e completamente o despertar sem igual, perfeito e completo’, falariam incorretamente. Porquê? Porque esse dharma que foi realizado manifesta e completamente pelo Tathāgata, o despertar sem igual, perfeito e completo, não existe de modo algum, Subhūti. Esse dharma que foi realizado manifesta e completamente pelo Tathāgata não tem nem verdade nem falsidade, Subhūti. Assim, o Tathāgata ensinou: ‘Todos os dharmas são dharmas de buda.’ Subhūti, ‘todos os dharmas’, todos esses são não-dharmas. Assim diz-se que ‘todos os dharmas são dharmas do buda’. É assim, Subhūti, por exemplo: como um humano dotado de um corpo e o corpo se fizesse grande.”

O venerável Subhūti respondeu: “Bhagavān, o que foi ensinado pelo Tathāgata, ‘um humano dotado de um corpo e um corpo grande’, é ensinado como não sendo um corpo. Assim, diz-se ‘dotado de um corpo e um corpo grande’.”

O Bhagavān disse: “Assim é, Subhūti; se um bodhisattva dissesse: ‘Farei com que os seres sencientes passem completamente para lá do sofrimento’, não deveria ser chamado de ‘bodhisattva’. Porquê? Subhūti, existirá de modo algum o dharma chamado ‘bodhisattva’?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān.”

O Bhagavān disse: “Por isso, Subhūti, foi ensinado pelo Tathāgata que ‘todos os dharmas são desprovidos de um ser senciente, desprovidos de um ser vivo, desprovidos de uma pessoa.’

“Subhūti, se um bodhisattva dissesse: ‘Concretizarei campos ornados’, também ele deveria ser chamado de modo semelhante. Porquê? Subhūti, porque os campos ornados chamados ‘campos ornados’ são ensinados pelo Tathāgata como sendo não-ornados. Assim, chamam-se ‘campos ornados’. Subhūti, qualquer bodhisattva que considere os dharmas como desprovidos de eu, dizendo: ‘Os dharmas são desprovidos de eu’ é chamado pelo Tathāgata, Arhat, Buda Perfeitamente Completo como um bodhisattva chamado ‘bodhisattva’.

“O que pensas disto, Subhūti? O Tathāgata possui o olho carnal?”

Subhūti respondeu: “Assim é, Bhagavān; o Tathāgata possui o olho carnal.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? O Tathāgata possui o olho divino?”

Subhūti respondeu: “Assim é, Bhagavān; o Tathāgata possui o olho divino.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? O Tathāgata possui o olho da sabedoria?”

Subhūti respondeu: “Assim é, Bhagavān; o Tathāgata possui o olho da sabedoria.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? O Tathāgata possui o olho do dharma?”

Subhūti respondeu: “Assim é, Bhagavān; o Tathāgata possui o olho do dharma.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? O Tathāgata possui o olho de buda?”

Subhūti respondeu: “Assim é, Bhagavān; o Tathāgata possui o olho de buda.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? Se houvesse também tantos rios Ganges como os grãos de areia do rio Ganges, se houvesse tantos sistemas mundanos como os grãos de areia destes, esses sistemas mundanos seriam muitos?”

Subhūti respondeu: “Assim é, Bhagavān; esses sistemas mundanos seriam muitos.”

O Bhagavān disse: “Subhūti, conheço totalmente os contínuos de consciência de diferentes pensamentos de tantos seres sencientes como os que existem nesses sistemas mundanos. Porquê? Porque o chamado ‘contínuo de consciência’ é ensinado pelo Tathāgata como sendo não-contínuo, Subhūti. Assim, chama-se um ‘contínuo de consciência’. Porquê? Porque a consciência passada não existe como observável, Subhūti, nem a consciência futura existe como observável, nem a consciência presente existe como observável.

“O que pensas disto, Subhūti? Se alguém, enchendo este sistema de mil milhões de mundos com os sete tipos de coisas preciosas, oferecesse dons, pensas que esse filho ou filha da linhagem produziria uma enorme pilha de mérito com base nisso?”

Subhūti respondeu: “Enorme, Bhagavān. Enorme, Sugata.”

O Bhagavān disse: “Assim é, Subhūti. Assim é; esse filho ou filha da linhagem produziria uma enorme pilha de mérito com base nisso. Se uma pilha de mérito fosse uma pilha de mérito, Subhūti, o Tathāgata não teria ensinado uma pilha de mérito chamada ‘pilha de mérito’.

“O que pensas disto, Subhūti? Deve-se ver alguém como sendo o Tathāgata devido à realização total do corpo da forma?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān; não se deve ver alguém como sendo o Tathāgata devido à realização total do corpo da forma. Porquê? Porque a ‘realização total do corpo da forma’ é ensinada pelo Tathāgata como não sendo realização total, Bhagavān; assim, chama-se ‘realização total do corpo da forma’.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? Deve-se ver alguém como sendo o Tathāgata devido a marcas perfeitas?”

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān; não se deve ver alguém como sendo o Tathāgata devido a marcas perfeitas. Porquê? Porque aquilo que é ensinado pelo Tathāgata como marcas perfeitas foi ensinado pelo Tathāgata como não sendo marcas perfeitas; assim, chamam-se ‘marcas perfeitas’.”

O Bhagavān disse: “O que pensas disto, Subhūti? Se se pensa que o Tathāgata considera: ‘o dharma é demonstrado por mim’, Subhūti, não o vejas assim, porque o dharma que é ensinado pelo Tathāgata não existe de modo algum. Se alguém dissesse: ‘o dharma é demonstrado pelo Tathāgata’, estaria a desaprovar-me, Subhūti, por ser inexistente e apreendido incorretamente. Porquê? Porque esse dharma demonstrado chamado ‘dharma demonstrado’, Subhūti, ao qual alguém se refere, dizendo ‘dharma demonstrado’, não existe de forma alguma.”

Então o venerável Subhūti disse ao Bhagavān: ” Bhagavān, no futuro, haverá seres sencientes que, tendo ouvido esta demonstração de um tal dharma como este, acreditarão claramente?”

O Bhagavān disse: “Subhūti, não há seres sencientes nem não-seres sencientes. Porquê? Porque os chamados ‘seres sencientes’ foram ensinados pelo Tathāgata como não-seres sencientes, assim, chamam-se ‘seres sencientes’.

“O que pensas disto, Subhūti? Esse dharma que foi manifesta e completamente realizado pelo Tathāgata, o despertar sem igual, perfeito e completo, existirá de algum modo?”

O venerável Subhūti respondeu: “Bhagavān, esse dharma que foi manifesta e completamente realizado pelo Tathāgata, o despertar sem igual, perfeito e completo, não existe de modo algum.”

O Bhagavān respondeu: “Assim é, Subhūti, assim é. Assim, mesmo o menor dharma não existe nem é observado; assim, chama-se ‘despertar sem igual, perfeito e completo’.

“Para além disso, Subhūti, esse dharma é equivalente, pois assim a não-equivalência não existe de modo algum; assim, chama-se ‘despertar sem igual, perfeito e completo’. Esse despertar sem igual, perfeito e completo – equivalente a algo desprovido de eu, sem ser senciente, sem ser vivo, sem pessoa – é manifesta e completamente realizado através de todos os dharmas virtuosos. Subhūti, os dharmas virtuosos chamados ‘dharmas virtuosos’, ensinados pelo Tathāgata como apenas não-dharmas chamam-se, assim, ‘dharmas virtuosos’.

“Para além disso, Subhūti, comparado com qualquer filho ou filha da linhagem que colecione uma pilha com os sete tipos de coisas preciosas, quase igual a Sumeru, rei das montanhas, existindo em mil milhões de sistemas mundanos e oferecendo dons, se alguém, tendo tomado apenas uma estância de quatro linhas desta sabedoria transcendente, o ensinasse aos outros, Subhūti, comparado com esta pilha de mérito, a anterior pilha de mérito, não chegando mesmo a uma centésima parte, não tem comparação.

“O que pensas disto, Subhūti? Se se pensa que o Tathāgata considera: ‘Os seres sencientes são libertados por mim’, Subhūti, não o vejas assim. Porquê? Porque esses seres que são libertados pelo Tathāgata não existem de modo algum, Subhūti. Se um ser senciente fosse libertado pelo Tathāgata, isso mesmo seria, do Tathāgata, agarrar-se a um eu, agarrar-se a um ser senciente, agarrar-se a um ser vivo, agarrar-se a uma pessoa, Subhūti. O chamado ‘agarrar-se a um eu’, que é ensinado pelo Tathāgata como não-agarrar-se, é contudo agarrado pelos seres comuns e infantis, Subhūti. Os chamados ‘seres comuns e infantis’ foram ensinados pelo Tathāgata como apenas não-seres; por isso chamam-se ‘seres comuns e infantis’.

“O que pensas disto, Subhūti? Deve ver-se alguém como sendo o Tathāgata devido a marcas perfeitas?”

Subhūti respondeu: ”Não, Bhagavān; não se deve ver alguém como sendo o Tathāgata devido a marcas perfeitas.”

O Bhagavān disse: “Assim é, Subhūti; assim é. Não se deve ver alguém como sendo o Tathāgata devido a marcas perfeitas. Se se visse alguém como sendo o Tathāgata devido a marcas perfeitas, Subhūti, mesmo um rei chakravartin seria o Tathāgata; por isso, não se vê alguém como sendo o Tathāgata devido a marcas perfeitas.”

Então, o venerável Subhūti disse ao Bhagavān: “Bhagavān, tal como eu compreendo o significado daquilo que o Bhagavān disse, não se vê alguém como sendo o Tathāgata devido a marcas perfeitas.”

Então, estes três versos foram proferidos pelo Bhagavān nessa altura:

“Quem quer que me veja como forma, quem quer que me conheça como som, que se tenha envolvido incorretamente através do abandono, esses seres não me veem.

Os budas são vistos como dharmatā; os guias são o dharmakāya.

Uma vez que o dharmatā não pode ser conhecido, não é passível de ser conhecido.”

“O que pensas disto, Subhūti? Se alguém apreender que ‘o Tathāgata, Arhat, Buda Perfeitamente Completo é devido a marcas perfeitas’, Subhūti, não o deves ver assim, Subhūti, o Tathāgata, Arhat, Buda Perfeitamente Completo não realiza manifesta e

completamente o despertar sem igual, perfeito e completo, devido a marcas perfeitas.

“Se alguém apreender que ‘um dharma foi designado como tendo sido destruído ou aniquilado pelos que entraram corretamente no veículo do bodhisattva‘, Subhūti, isso não deve ser visto assim; os que entraram corretamente no veículo do bodhisattva não designaram qualquer dharma como tendo sido destruído ou aniquilado.

“Para além disso, Subhūti, comparado com qualquer filho ou filha da linhagem que, enchendo completamente com os sete tipos de coisas preciosas tantos sistemas mundanos como os grãos de areia do rio Ganges, oferecesse dons, se qualquer bodhisattva alcançasse a paciência de que os dharmas são desprovidos de eu e não-produzidos, com base nisso, a pilha de mérito que eles próprios produziriam seria muito maior. Para além disso, Subhūti, uma pilha de mérito não deve ser adquirida pelo bodhisattva.”

O venerável Subhūti respondeu: “Bhagavān, uma pilha de mérito não deverá ser adquirida pelo bodhisattva?”

O Bhagavān disse: “Subhūti, adquirir, não agarrar indevidamente; assim, chama-se ‘adquirir’.

“Subhūti, se alguém diz: ‘o Tathāgata vai ou vem ou está de pé ou sentado ou deitado’, ele não compreende o significado explicado por mim. Porquê? Porque o Tathāgata (Aquele que Assim Partiu) não vai a lado algum nem veio de lado algum; assim, diz-se ‘o Tathāgata, Arhat, Buda Perfeitamente Completo’.

“Para além disso, Subhūti, se um filho ou filha da linhagem transformasse tantos átomos de terra como os que existem num sistema de milhares de milhões de mundos, como este por exemplo, em pó como uma coleção de átomos mais subtis, o que pensas disto, Subhūti? Essa coleção de átomos mais subtis seria grande?

Subhūti respondeu: “Assim é, Bhagavān. Essa coleção de átomos mais subtis seria grande. Porquê? Porque se houvesse coleção, Bhagavān, o Bhagavān não teria dito ‘coleção de átomos mais subtis‘. Porquê? Porque essa ‘coleção de átomos mais subtis’ que foi ensinada pelo Bhagavān, foi ensinada pelo Tathāgata como não-coleção; assim, diz-se ‘coleção de átomos mais subtis’. Esse ‘sistema de mil milhões de mundos’ que foi ensinado pelo Tathāgata, foi ensinado pelo Tathāgata como não-sistema; assim, diz-se ‘sistema de mil milhões de mundos’. Porquê? Porque se houvesse um sistema mundano, isso mesmo seria agarrar-se a uma coisa sólida. O que foi ensinado pelo Tathāgata como um agarrar-se a uma coisa sólida, foi ensinado pelo Tathāgata como um não-agarrar; assim, diz-se ‘agarrar-se a uma coisa sólida’.

O Bhagavān disse: “Agarrar-se a uma coisa sólida é em si mesmo uma convenção, Subhūti; esse dharma não existe como é expressado, contudo é agarrado pelos seres comuns e infantis. Subhūti, se alguém dissesse: ‘O ver como um eu foi ensinado pelo Tathāgata e o ver como um ser senciente, o ver como um ser vivo, o ver como uma pessoa foi ensinado pelo Tathāgata’, isso seria proferido com um discurso correto?

Subhūti respondeu: “Não, Bhagavān. Não, Sugata. Porquê? Porque o que foi ensinado pelo Tathāgata como sendo o ver como um eu foi ensinado pelo Tathāgata como não-ver, Bhagavān; por isso, diz-se ‘ver como um eu’.”

O Bhagavān disse: “os que entraram corretamente na via do bodhisattva devem saber, Subhūti, devem ver, devem considerar todos os dharmas assim; devem considerar assim, não permanecendo em discriminação alguma como um dharma. Porquê? Porque a discriminação como um dharma, chamada ‘discriminação como um dharma’ é ensinada pelo Tathāgata como não-discriminação, Subhūti; assim, diz-se ‘discriminação como um dharma’.

Para além disso, Subhūti, comparado com qualquer bodhisattva mahāsattva que, enchendo completamente incomensuráveis e incalculáveis sistemas mundanos com os sete tipos de coisas preciosas, oferecesse dons, se qualquer filho ou filha da linhagem que, tomando apenas uma estância de quatro linhas desta perfeição da sabedoria,  o memorizasse ou lesse ou compreendesse ou ensinasse aos outros em detalhe, correta e minuciosamente, com base nisso, o mérito que ele próprio produziria seria maior, incalculável, incomensurável.

“Como se deve ensinar correta e exaustivamente? Do mesmo modo que não se ensina correta e exaustivamente; assim, diz-se ‘ensinar correta e exaustivamente’.

“Como uma estrela, uma aberração visual, uma lâmpada, uma ilusão, o orvalho, uma bolha, um sonho, relâmpagos e uma nuvem – vê assim tudo o que é composto.

Dito isto pelo Bhagavān, o ancião Subhūti, os bodhisattvas, os quatro tipos de discípulos – bhikṣus, bhikṣunis, upāsakas, upāsikas – e o mundo com devas, humanos, asuras e gandharvas regozijaram e louvaram com distinção o que foi ensinado pelo Bhagavān.

 

Trad. Tib-EN: Gelong Thubten Tsultrim (George Churinoff), baseado na edição tibetana de Lhasa Zhol

Trad. EN-PT: Micael Inês, baseado na edição da Foundation for the Preservation of the Mahayana Tradition

(http://www.fpmt.org/teachers/zopa/advice/pdf/vajracutter_eng.pdf)

satipaṭṭhāna sutta

Publicado em Sem categoria tagged , às 3:01 por nucleodharmaleiria

Assim ouvi. Em certa ocasião, o Abençoado estava a viver no reino Kuru, numa cidade dos Kurus chamada Kammasādhamma. Aí o Abençoado dirigiu-se aos monges assim: “Monges”. “Venerável senhor”, responderam eles. O Abençoado proferiu o seguinte:

 

[CAMINHO DIRECTO]

“Monges, este é o caminho directo para a purificação dos seres, para a superação da tristeza e da lamentação, para o desaparecimento de dukkha e do descontentamento, para a aquisição do verdadeiro método, para a realização de Nibbāna, nomeadamente, os quatro satipaṭṭhānas:

 

[DEFINIÇÃO]

Quais são os quatro? Nisto, monges, no que respeita ao corpo, um monge permanece contemplando o corpo, diligente, com compreensão clara e atenção plena, livre de desejo e descontentamento no que respeita ao mundo. No que respeita às sensações, ele permanece contemplando as sensações, diligente, com compreensão clara e atenção plena, livre de desejo e descontentamento no que respeita ao mundo. No que respeita à mente, ele permanece contemplando a mente, diligente, com compreensão clara e atenção plena, livre de desejo e descontentamento no que respeita ao mundo. No que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas, diligente, com compreensão clara e atenção plena, livre de desejo e descontentamento no que respeita ao mundo.

 

[RESPIRAÇÃO]

E como é que, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo, monges? Nisto, tendo ido para a mata ou para junto da raíz de uma árvore ou para uma cabana vazia, ele senta-se; tendo cruzado as suas pernas, colocado o seu corpo erecto e estabelecida atenção plena à sua frente, inspira plenamente atento, expira plenamente atento.

Inspirando prolongadamente, ele sabe ‘Inspiro prolongadamente’, expirando prolongadamente, ele sabe ‘Expiro prolongadamente’. Inspirando brevemente, ele sabe ‘Inspiro brevemente’, expirando brevemente, ele sabe ‘Expiro brevemente’. Ele treina-se assim: ‘Irei inspirar experienciando todo o corpo’, ele treina-se assim: ’Irei expirar experienciando todo o corpo’. Ele treina-se assim: ‘Irei inspirar acalmando a formação corporal’, ele treina-se assim: ‘Irei expirar acalmando a formação corporal’.

Tal como um torneador hábil ou o seu aprendiz, quando faz um torneamento longo, sabe ‘Faço um torneamento longo’, ou quando faz um torneamento curto, sabe ‘Faço um torneamento curto’, da mesma forma, inspirando prolongadamente, ele sabe ‘Inspiro prolongadamente’… (continue como acima).

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo internamente, ou permanece contemplando o corpo externamente, ou permanece contemplando o corpo tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir no corpo, ou permanece contemplando a natureza do cessar no corpo, ou permanece contemplando a natureza tanto do surgir como do cessar no corpo. A consciência de que ‘há um corpo’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É assim que, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo.

 

[POSTURAS]

De novo, monges, quando está a andar, ele sabe ‘Estou a andar’; quando está de pé, ele sabe ‘Estou de pé’; quando está sentado, ele sabe ‘Estou sentado’; quando está deitado, ele sabe ‘Estou deitado’; ou sabe conforme o seu corpo estiver disposto.

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo internamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no corpo. A consciência de que ‘há um corpo’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É também assim que, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo.

 

[ACTIVIDADES]

De novo, monges, quando vai em frente e volta para trás ele age com compreensão clara; quando olha em frente e desvia o olhar ele age com compreensão clara; quando flecte e estende os membros ele age com compreensão clara; quando usa as suas vestes e carrega as suas vestes exteriores ele age com compreensão clara; quando come, bebe, quando se alimenta e saboreia ele age com compreensão clara; quando evacua e urina ele age com compreensão clara; quando está a andar, de pé, sentado, a adormecer, a acordar, a falar e calado ele age com compreensão clara.

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo internamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no corpo. A consciência de que ‘há um corpo’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É também assim que, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo.

 

[PARTES ANATÓMICAS]

De novo, monges, ele examina este mesmo corpo para cima desde as plantas dos pés e para baixo desde a ponta dos cabelos, cercado pela pele, como estando cheio de vários tipos de impurezas, assim: ‘neste corpo, há cabelos, pêlos, unhas, dentes, pele, carne, tendões, ossos, medula óssea, rins, coração, fígado, diafragma, baço,  pulmões, intestinos, mesentério, conteúdos do estômago, fezes, bílis, expectoração, pus, sangue, suor, gordura, lágrimas, secreções gordurosas, saliva, muco nasal, lubrificante articular e urina.’

Tal como se houvesse um saco com aberturas em ambas as extremidades, cheio de uma diversidade de grãos, tais como arroz do monte, arroz vermelho, feijões, ervilhas, milho-miúdo e arroz branco e um homem com bons olhos o abrisse e examinasse assim: ‘isto é arroz do monte, isto é arroz vermelho, isto são feijões, isto são ervilhas, isto é milho-miúdo, isto é arroz branco’; da mesma forma ele examina este mesmo corpo… (continue como acima).

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo internamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no corpo. A consciência de que ‘há um corpo’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É também assim que, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo.

 

[ELEMENTOS]

De novo, monges, ele examina este mesmo corpo, conforme esteja colocado, conforme esteja disposto, como sendo constituído por elementos, assim: ‘neste corpo há o elemento terra, o elemento água, o elemento fogo e o elemento ar’.

Tal como se um carniceiro hábil ou o seu aprendiz tivesse morto uma vaca e estivesse sentado num cruzamento com ela cortada em pedaços; da mesma forma, ele examina este mesmo corpo… (continua como acima).

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo internamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no corpo. A consciência de que ‘há um corpo’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É também assim que, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo.

 

[CADÁVER EM DECOMPOSIÇÃO]

De novo, monges, tal como se ele visse um cadáver atirado para um cemitério a céu aberto – morto há um, dois ou três dias, inchado, lívido e exsudando matéria… sendo devorado por corvos, falcões, abutres, cães, chacais ou vários tipos de vermes… um esqueleto com carne e sangue, unido com tendões… um esqueleto sem carne manchado com sangue, unido com tendões… um esqueleto sem carne e sem sangue, unido com tendões… ossos desligados e dispersos em todas as direcções… ossos branqueados, da cor das conchas… ossos empilhados com mais de um ano… ossos podres esmigalhando-se em pó – ele compara este mesmo corpo com aquele assim: ‘também este corpo é da mesma natureza, será assim, não está isento daquele destino.’

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo internamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no corpo. A consciência de que ‘há um corpo’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É também assim que, no que respeita ao corpo, ele permanece contemplando o corpo.

 

[SENSAÇÕES]

“E como é que, no que respeita às sensações, ele permanece contemplando as sensações, monges?

Nisto, quando sente uma sensação agradável, ele sabe ‘Sinto uma sensação agradável’; quando sente uma sensação desagradável, ele sabe ‘Sinto uma sensação desagradável’; quando sente uma sensação neutra, ele sabe ‘Sinto uma sensação neutra’.

Quando sente uma sensação mundana agradável, ele sabe ‘Sinto uma sensação mundana agradável’; quando sente uma sensação não mundana agradável, ele sabe ‘Sinto uma sensação não mundana agradável’; quando sente uma sensação mundana desagradável, ele sabe ‘Sinto uma sensação mundana desagradável’; quando sente uma sensação não mundana desagradável, ele sabe ‘Sinto uma sensação não mundana desagradável’; quando sente uma sensação mundana neutra, ele sabe ‘Sinto uma sensação mundana neutra’; quando sente uma sensação não mundana neutra, ele sabe ‘Sinto uma sensação mundana neutra’

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita às sensações, ele permanece contemplando as sensações internamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar nas sensações. A consciência de que ‘há sensação’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É assim que, no que respeita às sensações, ele permanece contemplando as sensações.

 

[MENTE]

“E como é que, no que respeita à mente, ele permanece contemplando a mente, monges?

Nisto, ele conhece uma mente com luxúria como sendo com ‘luxúria’ e uma mente sem luxúria como sendo ‘sem luxúria’; ele conhece uma mente enraivecida como sendo ‘enraivecida’ e uma mente sem raiva como sendo ‘sem raiva’; ele conhece uma mente iludida como sendo ‘iludida’ e uma mente sem ilusões como sendo ‘sem ilusões’; ele conhece uma mente contraída como sendo ‘contraída’ e uma mente dispersa como sendo ‘dispersa’; ele conhece uma mente grande como sendo ‘grande’ e uma mente estreita como sendo ‘estreita’; ele conhece uma mente superável como sendo ‘superável’ e uma mente insuperável como sendo ‘insuperável’; ele conhece uma mente concentrada como sendo ‘concentrada’ e uma mente desconcentrada como sendo ‘desconcentrada’. Ele conhece uma mente liberta como sendo ‘liberta’ e uma mente não liberta como sendo ‘não liberta’.

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita à mente, ele permanece contemplando a mente internamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no que respeita à mente. A consciência de que ‘há uma mente’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É assim que, no que respeita à mente, ele permanece contemplando a mente.

 

[OBSTÁCULOS]

“E como é que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas, monges? Nisto, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos dos cinco obstáculos. E como é que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando osdhammas em termos dos cinco obstáculos?

Se o desejo sensorial está presente nele, ele sabe ‘há desejo sensorial em mim’; se o desejo sensorial não está presente nele, ele sabe ‘não há desejo sensorial em mim’; e ele sabe como pode surgir o desejo sensorial que ainda não surgiu, sabe como pode ser removido o desejo sensorial que já surgiu e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento do desejo sensorial que já foi removido.

Se a aversão está presente nele, ele sabe ‘há aversão em mim’; se a aversão não está presente nele, ele sabe ‘não há aversão em mim’; e ele sabe como pode surgir a aversão que ainda não surgiu, sabe como pode ser removida a aversão que já surgiu e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento da aversão que já foi removida.

Se a preguiça e o torpor estão presentes nele, ele sabe ‘há preguiça e torpor em mim’; se a preguiça e o torpor não estão presentes nele, ele sabe ‘não há preguiça nem torpor em mim’; e ele sabe como podem surgir a preguiça e o torpor que ainda não surgiram, sabe como podem ser removidos a preguiça e o torpor que já surgiram e sabe como pode se prevenir o futuro surgimento da preguiça e do torpor que já foram removidos.

Se a inquietação e a preocupação estão presentes nele, ele sabe ‘há inquietação e preocupação em mim’; se a inquietação e a preocupação não estão presentes nele, ele sabe ‘não há inquietação nem preocupação em mim’; e ele sabe como podem surgir a inquietação e a preocupação que ainda não surgiram, sabe como podem ser removidas a inquietação e a preocupação que já surgiram e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento da inquietação e da preocupação que já foram removidas.

Se a dúvida está presente nele, ele sabe ‘há dúvida em mim’; se a dúvida não está presente nele, ele sabe ‘não há dúvida em mim’; e ele sabe como pode surgir a dúvida que ainda não surgiu, sabe como pode ser removida a dúvida que já surgiu e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento da dúvida que já foi removida.

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammasinternamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no que respeita aosdhammas. A consciência de que ‘há dhammas’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É assim que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos dos cinco obstáculos.

 

[AGREGADOS]

De novo, monges, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos dos cinco agregados do apego. E como é que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos dos cinco agregados do apego?

Nisto, ele sabe ‘tal é a forma material, tal é o seu surgir, tal é o seu cessar; tais são as sensações, tal é o seu surgir, tal é o seu cessar; tal é a percepção, tal é o seu surgir, tal é o seu cessar; tais são as formações volitivas, tal é o seu surgir, tal é o seu cessar; tal é a consciência, tal é o seu surgir, tal é o seu cessar.’

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammasinternamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no que respeita aosdhammas. A consciência de que ‘há dhammas’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É assim que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos dos cinco agregados.

 

[ESFERAS DOS SENTIDOS]

De novo, monges, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos das seis esferas dos sentidos internas e externas. E como é que, no que respeita aosdhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos das seis esferas dos sentidos internas e externas?

Nisto, ele conhece o olho, conhece formas e conhece a amarra que surge na dependência de ambos; e também sabe como pode surgir uma amarra que ainda não surgiu, sabe como pode ser removida uma amarra que já surgiu e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento da amarra que já foi removida.

Ele conhece o ouvido, conhece sons e conhece a amarra que surge na dependência de ambos; e também sabe como pode surgir uma amarra que ainda não surgiu, sabe como pode ser removida uma amarra que já surgiu e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento da amarra que já foi removida.

Ele conhece o nariz, conhece odores e conhece a amarra que surge na dependência de ambos; e também sabe como pode surgir uma amarra que ainda não surgiu, sabe como pode ser removida uma amarra que já surgiu e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento da amarra que já foi removida.

Ele conhece a língua, conhece sabores e conhece a amarra que surge na dependência de ambos; e também sabe como pode surgir uma amarra que ainda não surgiu, sabe como pode ser removida uma amarra que já surgiu e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento da amarra que já foi removida.

Ele conhece o corpo, conhece objectos palpáveis e conhece a amarra que surge na dependência de ambos; e também sabe como pode surgir uma amarra que ainda não surgiu, sabe como pode ser removida uma amarra que já surgiu e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento da amarra que já foi removida.

Ele conhece a mente, conhece objectos mentais e conhece a amarra que surge na dependência de ambos; e também sabe como pode surgir uma amarra que ainda não surgiu, sabe como pode ser removida uma amarra que já surgiu e sabe como se pode prevenir o futuro surgimento da amarra que já foi removida.

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammasinternamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no que respeita aosdhammas. A consciência de que ‘há dhammas’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É assim que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos das seis esferas dos sentidos.

 

[FACTORES DO DESPERTAR]

De novo, monges, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos dos sete factores do despertar. E como é que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos dos sete factores do despertar?

Nisto, se o factor do despertar da atenção plena está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da atenção plena está presente em mim’; se o factor do despertar da atenção plena não está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da atenção plena não está presente em mim’; ele sabe como pode surgir o factor do despertar da atenção plena que ainda não surgiu e sabe como se pode aperfeiçoar através do desenvolvimento o factor do despertar da atenção plena que surgiu.

Se o factor do despertar da investigação de dhammas está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da investigação de dhammas está presente em mim’; se o factor do despertar da investigação de dhammas não está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da investigação dedhammas não está presente em mim’; ele sabe como pode surgir o factor do despertar da investigação de dhammas que ainda não surgiu e sabe como se pode aperfeiçoar através do desenvolvimento o factor do despertar da investigação de dhammas que surgiu.

Se o factor do despertar da energia está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da energia está presente em mim’; se o factor do despertar da energia não está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da energia não está presente em mim’; ele sabe como pode surgir o factor do despertar da energia que ainda não surgiu e sabe como se pode aperfeiçoar através do desenvolvimento o factor do despertar da energia que surgiu.

Se o factor do despertar da alegria está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da alegria está presente em mim’; se o factor do despertar da alegria não está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da alegria não está presente em mim’; ele sabe como pode surgir o factor do despertar da alegria que ainda não surgiu e sabe como se pode aperfeiçoar através do desenvolvimento o factor do despertar da alegria que surgiu.

Se o factor do despertar da tranquilidade está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da tranquilidade está presente em mim’; se o factor do despertar da tranquilidade não está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da tranquilidade não está presente em mim’; ele sabe como pode surgir o factor do despertar da tranquilidade que ainda não surgiu e sabe como se pode aperfeiçoar através do desenvolvimento o factor do despertar da tranquilidade que surgiu.

Se o factor do despertar da concentração está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da concentração está presente em mim’; se o factor do despertar da concentração não está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da concentração não está presente em mim’; ele sabe como pode surgir o factor do despertar da concentração que ainda não surgiu e sabe como se pode aperfeiçoar através do desenvolvimento o factor do despertar da concentração que surgiu.

Se o factor do despertar da equanimidade está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da equanimidade está presente em mim’; se o factor do despertar da equanimidade não está presente nele, ele sabe ‘o factor do despertar da equanimidade não está presente em mim’; ele sabe como pode surgir o factor do despertar da equanimidade que ainda não surgiu e sabe como se pode aperfeiçoar através do desenvolvimento o factor do despertar da equanimidade que surgiu.

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammasinternamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no que respeita aosdhammas. A consciência de que ‘há dhammas’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É assim que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos dos sete factores do despertar.

 

[NOBRES VERDADES]

De novo, monges, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos das quatro nobres verdades. E como é que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos da quatro nobres verdades?

Nisto, ele sabe tal como realmente é, ‘isto é dhukkha’; ele sabe tal como realmente é, ‘isto é a origem de dhukkha’; ele sabe tal como realmente é, ‘isto é a cessação de dhukkha’; ele sabe tal como realmente é, ‘isto é o caminho que leva a à cessação de dhukkha.’

 

[REFRÃO]

Deste modo, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammasinternamente … externamente … tanto internamente como externamente. Ele permanece contemplando a natureza do surgir … do cessar … tanto do surgir como do cessar no que respeita aosdhammas. A consciência de que ‘há dhammas’ estabelece-se nele apenas na medida necessária para o mero conhecimento e atenção plena contínua. E ele permanece independente, não se apegando a nada no mundo.

É assim que, no que respeita aos dhammas, ele permanece contemplando os dhammas em termos das quatro nobres verdades.

 

[PREDIÇÃO]

Monges, se qualquer pessoa desenvolvesse estes quatro satipaṭṭhānas desta forma por sete anos, poder-se-ia esperar um de dois frutos: ou conhecimento final aqui e agora ou, se ainda houvesse um vestígio de apego, não-retorno. Para nem falar em sete anos… seis anos… cinco anos… quatro anos… três anos… dois anos… um ano… sete meses… seis meses… cinco meses… quatro meses… três meses… dois meses… um mês… meio mês… se qualquer pessoa desenvolvesse estes quatro satipaṭṭhānas desta forma por sete dias, poder-se-ia esperar um de dois frutos: ou conhecimento final aqui e agora ou, se ainda houvesse um vestígio de apego, não-retorno. Então, foi em relação a isto que se proferiu:

 

[CAMINHO DIRECTO]

Monges, este é o caminho directo para a purificação dos seres, para a superação da tristeza e da lamentação, para o desaparecimento de dukkha e do descontentamento, para a aquisição do verdadeiro método, para a realização de Nibbāna, nomeadamente, os quatro satipaṭṭhānas.”

Foi isto o que o Abençoado proferiu. Os monges ficaram satisfeitos e deliciados pelas palavras do Abençoado.

 

- Anālayo (2003), satipaṭṭhāna: the direct path to realization, p.3-13

Tradução: Micael Inês

Conselho de uma Flor

Publicado em Sem categoria tagged , às 2:48 por nucleodharmaleiria

Excerto do livro “The life of Shabkar: the autobiography of a Tibetan yogin”.

«Noutro dia, sai e fui até um prado coberto de flores para apanhar ar fresco. Estava a cantar O Inconcebível Nascido de Si Mesmo, a canção sobre a visão que Tilopa usou para ensinar o grande pândita Naropa.

Enquanto cantava e permanecia num estado de consciência da visão absoluta, reparei que, na abundância de flores espalhadas perante mim, uma flor particular ondulava suavemente no seu longo caule, emitindo uma fragrância doce. À medida que oscilava de um lado para o outro, ouvi esta cantiga no sussurro das suas pétalas:

 

Uma oferenda!

O meu pai e a minha mãe são o céu e a terra;

Sou a criança nutrida por calor e humidade.

Vê como ostento lindamente as minhas belas pétalas,

Ondulando-as nas dez direcções!

São a minha oferenda às Três Jóias.

 

Escuta-me, habitante da montanha:

O yogin para o qual todos os fenómenos aparentam ser escrituras

Fica satisfeito com o livro do mundo fenomenal.

Tu, suposto “ermita”, que coleccionas todo o tipo de rabiscos,

Cambaleias sob o peso

Da tua carga de livros gastos.

Se estes livros e instruções

Não estão presentes na tua própria mente,

Porque hás-de carregar tamanho fardo de escritos?

Quando vagueias pelas montanhas

A quem te podes queixar das dificuldades que suportas?

 

Não quero ferir os teus sentimentos,

Mas, de facto, até te falta a consciência

Da impermanência e da morte,

Para nem falar de qualquer realização da vacuidade.

 

Para aqueles com uma tal consciência [awareness],

Todos os fenómenos exteriores ensinam

A impermanência e a morte.

Eu, a flor, dar-te-ei agora, o yogin,

Um pequeno conselho útil

Sobre a morte e sobre a impermanência.

 

Uma flor nascida num prado,

Desfruto de perfeita felicidade

Com as minhas resplandecentes e coloridas pétalas em floração completa.

Cercada de uma impaciente nuvem de abelhas,

Danço alegremente, oscilando suavemente com o vento.

Quando cai uma chuva miúda,

As minhas pétalas agasalham-me;

Quando o Sol brilha, abro-me como um sorriso.

 

Presentemente, pareço estar suficientemente bem,

Mas não irei durar muito,

De modo nenhum.

 

Uma geada indesejada irá embotar estas cores vívidas,

Murcho até se tornarem castanhas.

Pensando nisto, fico perturbado.

Depois ainda, ventos -

Violentos, sem dó -

Despedaçar-me-ão

Até me tornar poeira.

Quando penso sobre isto,

Sinto-me dominado pelo medo.

 

Tu, ermita nascido no Baixo Rekong,

Também és da mesma natureza.

 

Cercado por uma multidão de discípulos,

Disfrutas de uma óptima aparência,

O teu corpo de carne e osso está cheio de vida.

Quando os outros de louvam, danças com alegria;

Quando surgem benfeitores com fé,

Sentas-te com um ar digno;

Quando te banham generosamente com comida,

Sorris com satisfação.

 

Presentemente, pareces estar suficientemente bem.

Mas não irás durar muito.

De modo nenhum.

 

O envelhecimento indesejado roubar-te-á

O teu saudável vigor;

O teu cabelo tornar-se-á branco

E as tuas costas vergar-se-ão.

Só de pensar nisto,

Não te sentes castigado?

 

Quando tocado pelas mãos implacáveis

Da doença e da morte

Partirás deste mundo

Para a próxima vida,

Derrotado e impotente.

Só de pensar nisto,

Não te sentes dominado pelo medo?

 

Visto que tu, ermita errante da montanha,

E eu, uma flor da montanha,

Somos amigos de montanha,

Ofereci-te

Este útil conselho.

 

Então a flor calou-se e permaneceu quieta. Respondi, cantando:

 

Ó brilhante e encantadora flor,

O teu discurso sobre a impermanência

É deveras maravilhoso.

Mas o que havemos nós de fazer?

Não haverá nada que se possa fazer?

 

A flor respondeu:

 

Faço esta oferenda,

Uma oferenda às infalíveis Três Jóias.

Nós os dois devemos agora fazer como eu digo.

 

Entre todas as actividades do samsara

Não há uma que seja duradoura.

 

O que quer que nasça morrerá;

O que quer que se junte separar-se-á;

O que quer que se reúna dispersar-se-á;

O que quer que esteja elevado cairá.

 

Tendo considerado isto,

Resolvo não me apegar

A estes viçosos prados.

Mesmo agora, na plena glória da minha ostentação,

Mesmo enquanto as minhas pétalas se revelam em esplendor,

Rezo para que possa rapidamente ir ao encontro

Do templo das Três Jóias.

 

Tu também, enquanto és forte e capaz,

Deves abandonar o teu apego

Pelo agradável sabor do respeito

E oferendas dos outros;

Medita em isolamento;

Procura o campo puro da liberdade,

A grande serenidade.

Rezo para que possas rapidamente

Encontrar os Reinos Puros.

 

A flor concluiu, “Se quiseres repousar em equilíbrio, mantendo a visão do estado natural, deves fazer isto” e repousou imóvel num estado claro, livre de pensamentos.»

 

 

- Shabkar Tsogdruk Rangdrol (1781-1851), The life of Shabkar: the autobiography of a Tibetan yogin / translated by Matthieu Ricard (2001)

Trad. EN-PT: Micael Inês

Examinar as nossas motivações

Publicado em Sem categoria tagged , às 2:39 por nucleodharmaleiria

“Devido ao importante papel da motivação para o resultado das nossas ações, torna-se essencial sabermos de verdade quais são as nossas motivações. Isso não é fácil. Precisamos de coragem, honestidade e vontade muito fortes para olhar para dentro dos nossos corações.

Se continuarmos inconscientes, simplesmente executamos os hábitos do nosso condicionamento. Sem saber quais são as nossas motivações, temos poucas hipóteses de abandonar as motivações inábeis ou de desenvolver sabedoria genuína.

Um ensinamento diz que se pudessemos escolher entre tomar um pequeno almoço, encontrar uma grande quantidade de dinheiro ou encontrar alguém que possa apontar os nossos defeitos com precisão, a última opção seria a mais valiosa para nós. Esse é o benefício do auto conhecimento e, ainda assim, quantos de nós fariam essa escolha?

Durante muito tempo, na minha prática de meditação, ficava embaraçado e envergonhado quando via condições prejudiciais na minha própria mente, condições como orgulho ou inveja, má vontade ou egoísmo; e em vez de as analisar e trabalhar para me libertar delas, eu ficava a julgar-me, descendo ainda mais fundo no buraco. Ou então sentia que me estavam a julgar e ficava infeliz quando os meus professores ou outras pessoas apontavam em mim esses estados prejudiciais da mente.

Mas após anos de prática, consigo sentir-me grato quando observo esses padrões inábeis a surgir, porque agora prefiro vê-los do que não os ver. Isso é mais uma oportunidade de me soltar desses padrões, ver a transparência essencial deles, e abandonar o fardo que eles representam.”

Joseph Goldstein

http://www.acessoaoinsight.net/arquivo_textos_theravada/joseph_goldstein.php

One Dharma

http://www.harpercollins.com/books/One-Dharma-Joseph-Goldstein/?isbn=9780062026361

16/12/2011

Atenção Plena nos Obstáculos

Publicado em Sem categoria às 18:58 por nucleodharmaleiria

Caros amigos,

Na sessão de meditação de hoje continuaremos o nosso estudo sobre a atenção plena.
Mais especificamente, o tema de hoje será sobre a atenção plena nos cinco obstáculos: desejo sensorial/avidez, malevolência/aversão, preguiça e torpor, agitação e inquietação, e dúvida ou indecisão.
Informamos também que faremos uma pausa nas semanas que antecedem o Natal e a passagem de ano, pelo que esta será a última sessão de meditação do ano 
Segue a Nota do Núcleo: Sessão de Meditação – Atenção Plena nos Obstáculos
Local: Ginásio dos Capuchos, em Leiria
Hora: 21:30
Cumprimentos a todos e boas festas.
Micael e Fernando

15/12/2011

Vacuidade e Interdependência – Paulo Borges

Publicado em Sem categoria às 4:26 por nucleodharmaleiria

Aqui fica uma ligação para o vídeo do seminário realizado no passado dia 10.12.2011 na União Budista Portuguesa, com Paulo Borges, com o tema “Vacuidade e Interdependência. Os Sutras da Prajnaparamita. O Sutra do Coração.

13/12/2011

Atenção plena na mente

Publicado em Sem categoria às 23:20 por nucleodharmaleiria

Na 6ª-Feira passada continuámos o nosso estudo da atenção plena.

O tema da sessão foi a atenção plena na mente.

Aqui vai o link para a Nota do Núcleo.

25/11/2011

Atenção plena nas sensações

Publicado em Sem categoria às 4:26 por nucleodharmaleiria

Esta 6ª-Feira continuaremos a nossa discussão acerca da prática de atenção plena (mindfulness). Iremos abordar especificamente a atenção plena nas sensações.

Encontramo-nos como habitualmente, pelas 21:30 no Ginásio dos Capuchos em Leiria. Vejam a Nota do Núcleo.

Saudações cordiais.

19/11/2011

Atenção plena no corpo

Publicado em Sem categoria às 23:09 por nucleodharmaleiria

Aqui vai a Nota do Núcleo referente à sessão de meditação de ontem.

Revimos alguns excertos do discurso sobre o estabelecimento da atenção plena (mindfulness) no corpo, mais especificamente a atenção plena das posturas (a andar, de pé, sentado e deitado) e das actividades diárias.

11/11/2011

5.º Programa de Estudo do Dharma – a Atenção Plena

Publicado em Sem categoria às 18:28 por nucleodharmaleiria

Caros amigos,

Iniciaremos hoje mais um Programa de Estudo do Dharma. Desta vez iremos abordar a temática da atenção plena. Para isso, analisaremos um discurso do Buda no qual ele apresenta detalhadamente o estabelecimento da atenção plena (satipaṭṭhāna sutta).

Hoje, falaremos essencialmente do significado de atenção plena, da definição de satipaṭṭhāna e da forma de desenvolver a atenção plena da respiração, tendo como base de estudo o livro do Ven. Anālayo “satipaṭṭhāna: the direct path to realization” (2003). Os excertos que se seguem foram retirados desta obra.

Encontramo-nos no local do costume (Ginásio dos Capuchos – Leiria), pelas 21:30. Clique aqui para ver a Nota do Núcleo.

Saudações cordiais.

Micael e Fernando

 

 

 

 

 

 

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