27/01/2012

Conselho de uma Flor

Publicado em Sem categoria tagged , às 2:48 por nucleodharmaleiria

Excerto do livro “The life of Shabkar: the autobiography of a Tibetan yogin”.

«Noutro dia, sai e fui até um prado coberto de flores para apanhar ar fresco. Estava a cantar O Inconcebível Nascido de Si Mesmo, a canção sobre a visão que Tilopa usou para ensinar o grande pândita Naropa.

Enquanto cantava e permanecia num estado de consciência da visão absoluta, reparei que, na abundância de flores espalhadas perante mim, uma flor particular ondulava suavemente no seu longo caule, emitindo uma fragrância doce. À medida que oscilava de um lado para o outro, ouvi esta cantiga no sussurro das suas pétalas:

 

Uma oferenda!

O meu pai e a minha mãe são o céu e a terra;

Sou a criança nutrida por calor e humidade.

Vê como ostento lindamente as minhas belas pétalas,

Ondulando-as nas dez direcções!

São a minha oferenda às Três Jóias.

 

Escuta-me, habitante da montanha:

O yogin para o qual todos os fenómenos aparentam ser escrituras

Fica satisfeito com o livro do mundo fenomenal.

Tu, suposto “ermita”, que coleccionas todo o tipo de rabiscos,

Cambaleias sob o peso

Da tua carga de livros gastos.

Se estes livros e instruções

Não estão presentes na tua própria mente,

Porque hás-de carregar tamanho fardo de escritos?

Quando vagueias pelas montanhas

A quem te podes queixar das dificuldades que suportas?

 

Não quero ferir os teus sentimentos,

Mas, de facto, até te falta a consciência

Da impermanência e da morte,

Para nem falar de qualquer realização da vacuidade.

 

Para aqueles com uma tal consciência [awareness],

Todos os fenómenos exteriores ensinam

A impermanência e a morte.

Eu, a flor, dar-te-ei agora, o yogin,

Um pequeno conselho útil

Sobre a morte e sobre a impermanência.

 

Uma flor nascida num prado,

Desfruto de perfeita felicidade

Com as minhas resplandecentes e coloridas pétalas em floração completa.

Cercada de uma impaciente nuvem de abelhas,

Danço alegremente, oscilando suavemente com o vento.

Quando cai uma chuva miúda,

As minhas pétalas agasalham-me;

Quando o Sol brilha, abro-me como um sorriso.

 

Presentemente, pareço estar suficientemente bem,

Mas não irei durar muito,

De modo nenhum.

 

Uma geada indesejada irá embotar estas cores vívidas,

Murcho até se tornarem castanhas.

Pensando nisto, fico perturbado.

Depois ainda, ventos -

Violentos, sem dó -

Despedaçar-me-ão

Até me tornar poeira.

Quando penso sobre isto,

Sinto-me dominado pelo medo.

 

Tu, ermita nascido no Baixo Rekong,

Também és da mesma natureza.

 

Cercado por uma multidão de discípulos,

Disfrutas de uma óptima aparência,

O teu corpo de carne e osso está cheio de vida.

Quando os outros de louvam, danças com alegria;

Quando surgem benfeitores com fé,

Sentas-te com um ar digno;

Quando te banham generosamente com comida,

Sorris com satisfação.

 

Presentemente, pareces estar suficientemente bem.

Mas não irás durar muito.

De modo nenhum.

 

O envelhecimento indesejado roubar-te-á

O teu saudável vigor;

O teu cabelo tornar-se-á branco

E as tuas costas vergar-se-ão.

Só de pensar nisto,

Não te sentes castigado?

 

Quando tocado pelas mãos implacáveis

Da doença e da morte

Partirás deste mundo

Para a próxima vida,

Derrotado e impotente.

Só de pensar nisto,

Não te sentes dominado pelo medo?

 

Visto que tu, ermita errante da montanha,

E eu, uma flor da montanha,

Somos amigos de montanha,

Ofereci-te

Este útil conselho.

 

Então a flor calou-se e permaneceu quieta. Respondi, cantando:

 

Ó brilhante e encantadora flor,

O teu discurso sobre a impermanência

É deveras maravilhoso.

Mas o que havemos nós de fazer?

Não haverá nada que se possa fazer?

 

A flor respondeu:

 

Faço esta oferenda,

Uma oferenda às infalíveis Três Jóias.

Nós os dois devemos agora fazer como eu digo.

 

Entre todas as actividades do samsara

Não há uma que seja duradoura.

 

O que quer que nasça morrerá;

O que quer que se junte separar-se-á;

O que quer que se reúna dispersar-se-á;

O que quer que esteja elevado cairá.

 

Tendo considerado isto,

Resolvo não me apegar

A estes viçosos prados.

Mesmo agora, na plena glória da minha ostentação,

Mesmo enquanto as minhas pétalas se revelam em esplendor,

Rezo para que possa rapidamente ir ao encontro

Do templo das Três Jóias.

 

Tu também, enquanto és forte e capaz,

Deves abandonar o teu apego

Pelo agradável sabor do respeito

E oferendas dos outros;

Medita em isolamento;

Procura o campo puro da liberdade,

A grande serenidade.

Rezo para que possas rapidamente

Encontrar os Reinos Puros.

 

A flor concluiu, “Se quiseres repousar em equilíbrio, mantendo a visão do estado natural, deves fazer isto” e repousou imóvel num estado claro, livre de pensamentos.»

 

 

- Shabkar Tsogdruk Rangdrol (1781-1851), The life of Shabkar: the autobiography of a Tibetan yogin / translated by Matthieu Ricard (2001)

Trad. EN-PT: Micael Inês

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